Como funciona o sistema educacional na China
Da educação universal - para todos - à competição de elite
Se você quer entender de que forma a estratégia desenhada para melhorar a educação no país está ligada aos avanços econômicos da China, essa newsletter é para você.
Nesta edição, mergulhamos na história da modernização educacional chinesa para entender como o país transformou a educação em um pilar estratégico de seu projeto de nação. Vamos ver como na China moderna, a máxima “a educação é a base de tudo” foi levado ao pé da letra.
Em pouco mais de 70 anos, o país saiu de um cenário onde 80% da população era analfabeta para construir o maior e mais ambicioso sistema educacional do planeta.
Como sempre, na China nada é por acaso.
Um conceito importante para entender algumas dinâmicas chinesas: o hùkǒu
Antes de mergulharmos na jornada educacional, precisamos entender uma peça-chave do quebra-cabeça social chinês: o sistema hùkǒu (户口). Pense nele como um registro de residência que, com base no local de nascimento, determina onde um cidadão pode acessar serviços sociais essenciais, como saúde, moradia e educação.
Na prática, isso cria uma divisão crucial entre os que têm um hùkǒu urbano e os que têm um hùkǒu rural. Se uma família de uma pequena vila se muda para uma metrópole como Beijing, seus filhos não são automaticamente proibidos de estudar lá, mas enfrentam uma série de barreiras. Por serem considerados residentes temporários podem não ter acesso às melhores escolas públicas ou aos mesmos subsídios que os moradores locais.
A verdadeira barreira aparece no final do ensino médio. O sistema do hùkǒu muitas vezes exige que os estudantes prestem o temido gāokǎo (o vestibular chinês, do qual ainda falaremos aqui) em sua cidade de origem, não onde vivem e estudaram. Isso força muitas famílias a uma escolha dolorosa: algumas famílias se separam, enviando o filho de volta para a cidade natal, outras migram para cidades maiores alguns anos antes do gāokǎo, em uma busca de um hùkǒu urbano que garanta melhores oportunidades.
Custo da educação na China: escola pública ou privada?
Para entender os gastos com educação na China, é preciso abandonar a lógica ocidental. O sistema é um mosaico de acesso público, domínio privado e custos compartilhados, com uma estrutura bem definida para cada fase da vida do estudante.
Educação Infantil (Até 6 anos): domínio do ensino privado
A jornada começa, na Educação Infantil, com o setor privado recebendo a maior parte dos alunos. Nesse estágio, escolas públicas subsidiadas pelo governo são uma opção, mas as poucas vagas são preenchidas por sorteio ou a famosa rede de conexões (guānxi - 关系).
Atualmente, o custo com a educação infantil representa uma despesa considerável para as famílias, o que é um fator relevante se analisado em conjunto com o declínio da taxa de natalidade.
Educação Básica Obrigatória (6 a 15 anos): gratuita, pública e universal
Hoje, todas as crianças entre 6 e 15 anos estão matriculadas em uma escola. A educação básica obrigatória é gratuita e fornecida por escolas públicas, mas há uma crescente presença de escolas privadas e internacionais, especialmente nas grandes cidades.
CURIOSIDADE CULTURAL:
Como regra, os cidadãos chineses não podem frequentar escolas internacionais, independentemente do poder aquisitivo (exceto se tiverem vivido fora do país por período significativo ou tiverem passaporte estrangeiro). Porém, existem escolas públicas bilíngues, um projeto de vanguarda, destinado a uma elite acadêmica, que ensina inglês sem comprometer os valores ideológicos.
Ensino Médio e Superior: o fim da gratuidade e o início do custo compartilhado
A partir dos 15 anos, os estudantes chineses pagam pela educação, mesmo em escolas públicas. Mas, em comparação com padrões ocidentais, as mensalidades são baixas devido a um sistema complexo de subsídios estatais, além da existência de diversos programas de apoio financeiro para os estudantes.
O custo anual do Ensino Médio gira em torno de RMB 1.500-5.000 (US$ 220 a 720), com as regiões mais desenvolvidas do país já em fase de transição deste nível de ensino para a gratuidade universal.
Já o Ensino Superior, em universidades públicas, como exemplo, tem mensalidades que variam de RMB 3.000 a 10.000 por ano (US$ 430 a 1,400) para a maioria dos cursos, e RMB 8.000 a 15.000 (US$ 1,150 a 2,160) para cursos de Arte, Medicina e Engenharia.
Pela lógica do Governo, a gratuidade do Ensino Superior foi abolida com base na filosofia de que se trata de um investimento no próprio futuro, que gera benefícios individuais (melhores salários) e que, portanto, deve ser um custo compartilhado entre o Estado e a família. Sem esse compartilhamento, o país não conseguiria financiar a expansão massiva que era necessária para o bem coletivo.
O lema oficial é: “Nenhum aluno será deixado para trás devido a dificuldades financeiras.”
Como funciona a jornada educacional na China
A educação infantil não é obrigatória. Mas as crianças geralmente começam aos 3 anos no Jardim de Infância. É aos 6 anos que tem início a educação básica obrigatória, que dura 9 anos, dividida entre a Educação Primária e o Ensino Médio Inferior.
Após o 9º ano, o ensino deixa de ser obrigatório, mas ainda assim é uma exigência social. O Ensino Médio Superior tem duração de 3 anos, podendo ser acadêmico ou profissionalizante. Para os alunos que seguem a via acadêmica, há a possibilidade de ingressar no Ensino Superior, com duração de 2 a 5 anos. Mas sobre essa transição - do Médio para o Superior - ainda iremos explorar bastante aqui em nossa edição.
CURIOSIDADE CULTURAL
O ritual da soneca obrigatória após o almoço é institucionalizado nas escolas de Educação Infantil da China, conforme a Diretriz Operacional para Jardins de Infância. Não é raro que essas crianças (3 a 6 anos) tenham uma longa jornada e passem 9 a 10 horas por dia na escola. Por isso, após o almoço, todas são encaminhadas para o soninho de cerca de 2 horas. Essa prática não só atende às necessidades fisiológicas segundo a Medicina Tradicional Chinesa, mas também simboliza disciplina - e um momento para suprimir necessidades individuais em prol da harmonia coletiva.
Política de rotação de professores para a redução da desigualdade educacional
Na China, a carreira dos professores das escolas públicas, do ensino fundamental ao médio, é regida pelas regras do serviço público local (provincial, municipal ou distrital). Eles são, em sua maioria, funcionários públicos, e suas condições de trabalho e progressão de carreira são determinadas por essas normas.
A política de rotação de professores tem sido uma ferramenta importante para combater a desigualdade educacional. Com ela, os professores de melhor desempenho são designados para escolas com resultados mais baixos, numa tentativa de equalizar as condições de ensino entre as diferentes regiões do país. Esse processo, que pode durar de 1 a 3 anos, permite aos professores que participam receber benefícios como subsídios financeiros e pontuações extras para futuras promoções.
A meritocracia chinesa na educação, do Império ao século XXI
O sistema de exames da China, que hoje se manifesta no zhōngkǎo (definição do ensino médio a ser cursado) e no gāokǎo (acesso ao ensino superior), não é apenas um processo seletivo acadêmico, mas a evolução de uma tecnologia de governança desenvolvida há mais de mil anos. A origem desses exames remonta ao sistema imperial, criado para resolver um desafio logístico e político em um país de dimensões continentais: identificar talentos para a administração do Estado e transformar potenciais líderes dissidentes em funcionários do governo.
Desde então, muita coisa mudou, o que não mudou foi a competitividade e meritocracia. A lógica estrutural foi preservada e refinada pelo Estado moderno.
* Mobilidade social: o sistema é projetado para oferecer um canal de mobilidade social baseado no mérito. Para as famílias, o sucesso no gāokǎo é um requisito fundamental para manter ou elevar o status socioeconômico.
* Função de equilíbrio: ao fornecer uma trajetória clara e previsível de ascensão social, os exames funcionam como uma “força estabilizadora” para a sociedade chinesa, garantindo que o talento nacional seja canalizado para o fortalecimento do país.
* Legitimação e lealdade: permanece como objetivo o desenvolvimento de indivíduos talentosos que operem dentro do núcleo central da estrutura do Partido Comunista Chinês.
Não é exagero dizer que os exames definem o futuro dos estudantes.
Por volta dos 15 anos, ano final do 9º ano, os alunos prestam o zhōngkǎo. Por política pública, cerca de 50% dos estudantes são direcionados para o ensino profissionalizante e apenas 50% têm acesso às universidades. A seleção é meritocrática, ou seja, a nota de corte do zhōngkǎo define o destino dos alunos, independentemente de sua condição social ou geográfica.
Dependendo do desempenho no zhōngkǎo, o aluno será encaminhado para um Ensino Médio Acadêmico, mais prestigiado e voltado para a preparação para a universidade, ou para um Ensino Profissionalizante Secundário, que oferece formação técnica. Estes últimos dificilmente terão a chance de ingressar em uma universidade na China.
CURIOSIDADE CULTURAL:
Em julho de 2021, o Governo chinês implementou a “Double Reduction” Policy, uma mudança drástica no sistema educacional. O objetivo foi combater a desigualdade educacional, reduzir a pressão financeira e acadêmica sobre as famílias e também lidar com a queda da taxa de natalidade no país. Como parte dessa política, atividades como aulas extras nos finais de semana e tutoriais virtuais de tutores estrangeiros foram proibidas. A indústria de tutoria privada, que movimentava bilhões de dólares, foi desmantelada, mas os tutores continuaram a atuar, de forma mais discreta e cara.
Gāokǎo: um mecanismo de estratificação social

O exame chinês de admissão para o ensino superior, o gāokǎo (高考), mobiliza o país por dois dias. Em 2025, mais de 13 milhões de estudantes se inscreveram para o gāokǎo. Isso equivale à população inteira da Bélgica prestando o mesmo exame no mesmo dia.
O gāokǎo representa o momento de maior pressão para estudantes chineses que desejam entrar em uma universidade. Ele é, de fato, a única forma de ingresso nas universidades públicas do país. A prova inclui Chinês, Matemática, Inglês, e, dependendo da área escolhida pelo estudante, Ciências ou Humanidades.
O gāokǎo pode durar de 2 a 4 dias, dependendo das matérias escolhidas, e envolve uma pressão imensa. Durante esses dias, a China praticamente para, com cidades mobilizadas para garantir a segurança dos estudantes e até com escolta de ônibus. Milhares de pais se aglomeram em frente às escolas, orando pela aprovação dos filhos.
O resultado do gāokǎo define não apenas o futuro acadêmico, mas também o futuro profissional e, em muitos casos, o status social do candidato. O nome da universidade ainda é o fator mais relevante na conquista do primeiro emprego, e o network proporcionado por essas universidades também garante salários iniciais 20-30% mais altos.
Para os que se destacam, o destino são universidades de elite como Tsinghua (a "MIT da China") e Pequim (a "Harvard da China"), além de Zhejiang, Jiao Tong e Fudan. A competição é feroz: mesmo em regiões menos concorridas, alunos precisam estar entre os 0,5% a 1% melhores. Em províncias mais competitivas, isso cai para 0,03% a 0,07%. O nome da universidade garante salários iniciais 20-30% mais altos.
O ‘milagre econômico’ e o papel da educação
Os economistas Ruixue Jia (UC San Diego) e Hongbin Li (Stanford) passaram décadas estudando o gāokǎo e lançaram, em 2025, o livro “How the Gaokao Shapes China”. Segundo os autores, a educação teve um papel fundamental em trazer a China ao que ela é hoje. Mais precisamente, argumentam que um terço do crescimento econômico se deve à estratégia que a China vem desenvolvendo nas últimas décadas.
// O multiplicador de “capital humano”: desde o final dos anos 90, a expansão radical pela qual a China passou multiplicou o capital intelectual do país. As inscrições no Ensino Superior cresceram de menos de 3% em 1990 para quase 60% no começo dos anos 90.
// Retornos de renda: os economistas estimam que para cada ano adicional de escola na China, a renda individual aumenta perto de 10%. Em uma escala nacional, isso cria uma força de produtividade gigante, assim como receita tributária, sem falar na força massiva do consumo.
// Transição tecnológica: o livro defende que a educação facilitou a evolução da China de uma economia “intensiva em trabalho” (manufatura de baixo custo) para uma economia “intensiva em conhecimento” (knowledge-intensive), que permitiu o desenvolvimento tecnológico do país.
Educação como projeto de futuro
Na China, falar de educação mobiliza toda a família. O Estado tem plena consciência disso e trata o tema como uma prioridade de longo prazo, refletindo a visão de que o capital humano é fundamental para o desenvolvimento do país.
Em um país tão focado em tecnologia e educação, não poderia ser diferente: a integração da tecnologia no ensino está ocorrendo de forma acelerada. Salas de aula inteligentes, com tablets interativos que fornecem feedback em tempo real; IAs que transformam desenhos em imagens realistas para engajar os alunos; plataformas que avaliam o desempenho dos alunos e monitoram o bem-estar mental.
Depois de termos explorado a estrutura do sistema educacional chinês, vamos deixar para uma próxima edição (eba!) as novidades tecnológicas que estão transformando esse sistema, bem como os desafios que surgem com o uso crescente de tecnologias educacionais.





Excelente
Adorei o artigo! Concordo muito com visão trazida por vocês de que a educação na China tem sido um dos pilares estratégicos do desenvolvimento. Exemplo de uma grande economia em que o ensino público está melhorando de qualidade. O outro lado da moeda é a pressão enorme sobre as crianças. Difícil encontrar o balanço…