Na China, superstição e tradição andam juntas
Como as tradições chinesas se mantém vivas e adaptadas ao ambiente contemporâneo de negócios
“A primeira vez que entrei em um elevador na China e percebi que não havia o 4º andar, eu já sabia que esse era um número considerado de má sorte. Só não imaginava o quanto essas crenças seguiam presentes na vida cotidiana e de negócios chineses.” Essa foi a percepção, alguns anos atrás, da Patricia, co-autora dessa newsletter, quando passou a viver na China. Resolvemos então contar aqui como isso é vivido hoje e como perpassa o mais simples hábito cotidiano até as mesas de grandes negociações corporativas.
Imagine um empresário chinês de alto escalão, com formação internacional e trânsito natural entre mercados globais. Agora pense que antes de assinar um grande contrato ou inaugurar uma nova unidade de seu negócio, ele consulta um mestre de Feng Shui (风水) para definir a data e a hora mais auspiciosas (择日, zé rì) para essa assinatura ou inauguração.
Para muitos ocidentais, isso pode parecer uma contradição. Grandes decisões de negócios costumam passar por gráficos e planilhas financeiras e não por subjetividades, como a natureza ou simbolismos. Mas essa lógica simbólica segue viva no mundo dos negócios mesmo na China ultramoderna, que viraliza nas redes sociais no Brasil, fazendo delivery por drones.
Na China, essas técnicas milenares, ressignificadas para o mundo contemporâneo, ainda ajudam a organizar expectativas, reforçam códigos de conduta, sinalizam respeito e, em alguma medida, reduzem incertezas diante da tomada de decisões importantes.
Entender essa camada comportamental pode evitar julgamentos apressados e melhorar (e muito!) a forma como se negocia com chineses. O que erroneamente, para um estrangeiro, pode soar como algo esotérico é, na verdade, uma parte séria da mesa de negociação.
O emblemático caso do HSBC em Hong Kong
Em 1981, o HSBC iniciou a reconstrução de sua sede em Hong Kong. Não se tratava apenas de um novo edifício, mas de uma decisão estratégica, em um momento delicado: o território caminhava para a transição de soberania para a China continental, prevista para 1997.
Para um banco britânico profundamente enraizado na Ásia, o desafio não era sobre construir um prédio, mas sobre sinalizar confiança, permanência e respeito pela cultura local que sustentava seus negócios.
Foi nesse contexto que o escritório de arquitetura responsável pelo projeto da headquarter do HSBC decidiu envolver um renomado mestre de Feng Shui
O arquiteto internacionalmente conhecido, Norman Foster, afirmou que o design final do edifício foi resultado de um processo intenso de questionamento e adaptação, que incluiu a consulta a um mestre de Feng Shui.
Mais do que uma escolha estética ou uma concessão, essa decisão funcionou como um gesto público. Ao incorporar uma tradição chinesa em um de seus ativos mais visíveis, o banco comunicava que entendia e respeitava o ambiente no qual operava. O Feng Shui, nesse caso, operou como estratégia corporativa. Foi uma forma de construir legitimidade e reforçar sua posição, em um momento que poderia ter sido de fricção cultural. Até os dias de hoje, o HSBC mantém o status de maior banco estrangeiro presente na China.




Como essas tradições aparecem na prática
Depois do caso HSBC, a pergunta natural é: isso é exceção ou padrão? O spoiler já foi dado: na vida prática, esses códigos simbólicos aparecem o tempo todo, muitas vezes de forma sutil, mas com impacto real nas decisões.
Vamos conhecer algumas das formas como isso se manifesta?
Comece a prestar atenção a estes sinais quando estiver lendo ou assistindo conteúdo de autoria chinesa - ou, melhor ainda, observe ao vivo se você for até lá.
Números: carregam significados, por sua similaridade fonética com outras palavras. O 4 (四, sì) costuma ser evitado por remeter à palavra que significa “morte”, enquanto o 8 (八, bā) é amplamente buscado por remeter à prosperidade. Isso influencia datas, endereços, preços, contratos e até escolhas aparentemente simples.
Curiosidades: sabia que os imóveis com número 8 costumam ser mais caros na China? E vale lembrar que a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Beijing começou em 08/08/2008 às 20:08
Feng Shui: vai muito além da estética e pode influenciar desde a organização de um escritório até a escolha de um imóvel. Sempre com a ideia de favorecer estabilidade e crescimento. No Feng Shui (literalmente, “vento e água") os números também importam, influenciando, por exemplo, a quantidade de cômodos ou de móveis dentro de um lar.
Datas: também não são neutras. O momento de lançar um produto ou assinar um contrato pode ser ajustado para alinhar com períodos considerados mais favoráveis. Se uma liderança estrangeira ignora isso e pressiona por uma data qualquer, isso pode gerar, em uma equipe chinesa, uma resistência silenciosa.
A linguagem simbólica é igualmente decisiva. Cores carregam significados específicos: vermelho e dourado sinalizam prosperidade; branco e preto, luto.
Presentes também têm seus códigos. Dar um relógio, por exemplo, soa como “enviar alguém para a morte” em mandarim (送钟, sòng zhōng). Uma pêra evoca separação (梨, lí, homófono de 离, lí—separação). Dar presentes como estes demonstra falta de conhecimento e sensibilidade cultural.
Porque isso importa tanto:
Enquanto uma crença individual pode ser privada e até invisível, a tradição de um país não pode ser ignorada. Ela é compartilhada, reconhecida e, em certa medida, esperada. Ignorá-la não é percebido como racionalidade, mas como falta de sensibilidade e, em alguns casos, pode ser visto como desrespeito a uma cultura.
Onde o Ocidente se confunde?
A confusão costuma começar com um pressuposto: o de que decisões racionais deveriam ser guiadas apenas por critérios objetivos. A partir daí, tudo o que foge desse padrão tende a ser classificado como superstição. Na China, essa separação não é tão clara. Práticas simbólicas não são necessariamente vistas como opostas à racionalidade, mas como camadas adicionais de leitura. Elas convivem com análise, experiência e contexto.
Não é incomum que uma decisão seja, ao mesmo tempo, pragmática e simbólica. Se não compromete o resultado e ainda pode favorecer a percepção, por que não incorporar? Essa lógica ajuda a explicar por que tradições seguem presentes mesmo em ambientes altamente sofisticados e por que executivos experientes no território chinês não veem contradição em utilizá-las.
Em decisões relevantes (como a escolha de uma data para a abertura de uma operação ou a mudança de sede), não é incomum que empresas recorram a consultores especializados, que ajudam a identificar características consideradas mais ou menos favoráveis.
Os consultores especializados na chamada Metafísica Chinesa (玄学 Xuánxué) podem usar diferentes ferramentas. Entre elas, destacam-se o calendário lunar chinês (农历 Nónglì), a astrologia (八字 Bāzì) e textos antigos como o Almanaque Chinês (通书 Tōngshū). Todo esse sistema tem como base o I-Ching (易经 Yìjīng), o milenar 'Livro das Mutações', que funciona como o código-fonte filosófico para entender os ciclos de mudança. Além disso, utilizam o Qi Men Dun Jia (奇门遁甲 Qímén Dùnjiǎ), um sistema complexo de probabilidades que atua como um modelo estratégico de tomada de decisão, integrando tempo, espaço e energia — como se fosse um software de simulação de cenários.
Curiosidade: em 2019, no Homerton College, da Universidade de Cambridge, foi a primeira vez que o Qi Men Dun Jia foi discutido em uma instituição de ensino superior ocidental de elite. O simpósio foi apresentado por Shi Miao (Dr. Shi Dingkun), um dos representantes contemporâneos mais destacados desta ferramenta de decisão e um ativo promotor da cultura chinesa no exterior.
Para o olhar ocidental, por mais incomum que pareça, a dinâmica é muito semelhante à contratação de um consultor de risco. Ao envolver um especialista, as empresas buscam mais do que uma simples recomendação: estão sinalizando diligência, respeito por um sistema cultural compartilhado e extremo cuidado na tomada de decisão. Há ainda um efeito menos visível, mas profundamente relevante: a escolha deixa de ser inteiramente individual. Em contextos de alta incerteza, esse respaldo ajuda a diluir a responsabilidade e a reduzir a ansiedade associada a movimentos de grande impacto.
Numa empresa, esse pensamento frequentemente se baseia no conceito de que o sucesso depende de três fatores alinhados:
天时 (Tiān shí): o tempo certo (aqui entra o 择日, zé rì — a seleção da data e hora)
地利 (Dì lì): o lugar certo (aqui entra o Feng Shui espacial das sedes e escritórios)
人和 (Rén hé): a harmonia humana (relacionamento entre as partes, networking, Guanxi). Por isso assinar um contrato no momento errado seria como tentar navegar contra a maré, um desperdício de energia e um risco desnecessário.
Běn Mìng Nián (本命年) — o ano do zodíaco pessoal
Na astrologia chinesa, a cada 12 anos uma pessoa entra no seu ano de nascimento zodiacal — o chamado běn mìng nián. Ao contrário do que possa se imaginar, não é um período de sorte, mas de maior vulnerabilidade. É um ano em que a pessoa pode decidir usar mais vermelho como forma de proteção, assim como evitar decisões consideradas mais importantes nesse ano - casar, por exemplo, nem pensar!
Durante seus běn mìng nián, CEOs e presidentes tendem a adotar uma postura mais conservadora. E esse cuidado não fica restrito à vida pessoal. Pesquisas acadêmicas recentes, baseadas em dados de empresas chinesas de capital aberto, indicam que esse ciclo também pode se refletir no comportamento de executivos.
Isso aparece em diferentes dimensões:
redução de investimentos mais arriscados, como P&D
menor propensão a fusões e aquisições
comunicação mais cautelosa sobre riscos
maior retenção de caixa e práticas financeiras mais conservadoras
Há também efeitos menos intuitivos. Em alguns casos, empresas aumentam doações filantrópicas, interpretadas como uma forma de equilibrar um período considerado mais sensível. Ao mesmo tempo, a volatilidade das ações tende a diminuir, refletindo essa redução geral na tomada de risco. Para quem negocia com empresas chinesas, isso abre uma leitura adicional de contexto.
Curiosamente, encontramos alguns papers acadêmicos, realizados em universidades fora da China, que buscam entender essa subjetividade. Fazem isso através dos dados: a maior parte destes papers avalia decisões financeiras realizadas pelas empresas chinesas listadas a partir da lógica do běn mìng nián de seus CEO's. A conclusão? Sim, o ano lunar impacta grandes decisões destas lideranças.
Para refletir, pensando em Brasil
No Brasil, também convivemos com rituais e símbolos. Somos um país extremamente religioso, sincrético e, portanto, cheio de tradições. Assim como na China, a nossa tradição não desaparece sob a luz da ciência; ela se adapta, provando que o desejo humano de encontrar significado e magia no cotidiano é, no fim das contas, universal.
No entanto, quando entramos no mundo corporativo, vestimos a lógica da racionalidade e passamos a tratar rituais simbólicos como um tabu, que não pertencem à sala de reuniões.
O exemplo chinês nos convida a repensar essa divisão. Se por lá se adapta a tradição para a era moderna, nós também podemos reconhecer o valor pragmático dos nossos próprios rituais. Seja o Feng Shui em Shanghai ou a espada de São Jorge na entrada do escritório no eixo Rio-São Paulo, essas práticas geram conforto, unem equipes diante de desafios e nos lembram que, por trás de toda análise de mercado, as decisões continuam sendo tomadas por seres humanos tentando, à sua maneira, navegar pelo imponderável.






