Quando você pensa em uma cidade inteligente, o que vem à cabeça? Sensores, câmeras, paineis de controle? Sim, é também sobre isso. Mas tem uma parte invisível, baseada em “deep tech” que ajuda a contar porque inteligência artificial, na China, é sobre infra-estrutura. É sobre forma como as cidades são administradas e como as decisões são tomadas para melhorar a vida das pessoas que vivem nelas. Isso passa por uma inteligência ecossistêmica que está para além do que o olho consegue ver. Prepare-se para esse mergulho.
Os sensores e a coleta de dados ganham camadas mais profundas e complexas. Há cidades chinesas que possuem sistemas operacionais que se assemelham a uma verdadeira rede neural, que monitora e reage de forma integrada às necessidades e aos acontecimentos da cidade, em tempo real, como um grande metabolismo.

Em uma única tela de controle é possível acompanhar temperaturas, nível de tráfego, acidentes de trânsito, consumo de energia, consultas médicas, nascimentos e níveis de poluição.
Mas talvez o mais interessante não seja a quantidade de informação disponível. É o que acontece depois que ela chega.
Quando diferentes sistemas começam a conversar entre si, a cidade deixa de simplesmente enxergar o que está acontecendo e começa a responder. Um acidente altera o trânsito. Uma mudança meteorológica gera alertas. Dados acumulados ajudam a prever onde determinado serviço público será mais necessário. A cidade se antecipa e se prepara para agir de forma mais eficiente.
[É aqui que a ideia de smart city começa a ganhar outro significado]
E talvez Shenzhen seja um dos melhores lugares para observar essa transformação.
Shenzhen - a cidade que ‘pensa’
A primeira coisa que você vai ficar sabendo quando pesquisar sobre Shenzhen é que há pouco mais de quatro décadas, a cidade tinha menos de 100 mil habitantes e ainda carregava os traços das pequenas comunidades rurais e pesqueiras que ocupavam aquela região ao lado de Hong Kong.
Em 1980, foi escolhida para ser uma das primeiras Zonas Econômicas Especiais da China. Desde então, transformou-se em uma megacidade com mais de 17 milhões de habitantes e sede de algumas das empresas de tecnologia mais importantes do país.
Huawei e Tencent estão ali, assim como a BYD. Mas Shenzhen talvez seja ainda mais interessante pelo que acontece fora dessas empresas.
Hoje, inteligência artificial, sensores, redes digitais e análise de dados estão sendo incorporados à própria infraestrutura urbana. Em vez de funcionarem como projetos tecnológicos isolados, começam a conectar transporte, energia, serviços públicos, administração e gestão de emergências.
Uma matéria publicada pelo Shenzhen Daily em novembro de 2025 descreveu Shenzhen como uma das primeiras cidades a transformar digitalização em um verdadeiro “urban operating system” - um sistema operacional urbano. A IA deixa de ser apenas uma indústria ou uma ferramenta e começa a funcionar como infraestrutura pública.
Parece abstrato? Então vamos para a rua.
Imagine uma ambulância atravessando Shenzhen para chegar a um hospital. Sistemas de inteligência artificial podem coordenar os semáforos para criar uma sequência de sinais verdes e facilitar sua passagem. A mesma infraestrutura é usada na gestão do trânsito e no transporte público.
Em Luohu, um dos distritos da cidade, a tecnologia aparece em outro lugar: no cuidado com os idosos. Um sistema inteligente de atendimento já cobre as 81 comunidades do distrito, digitalizou os perfis de mais de 40 mil idosos e contabilizou mais de 210 mil atendimentos domiciliares.
E até a burocracia entrou nessa história.
Em fevereiro de 2025, Futian, outro distrito de Shenzhen, colocou para trabalhar seus primeiros 70 “funcionários digitais”, agentes de IA baseados no DeepSeek. Eles foram incorporados a 240 situações diferentes da administração pública, desde processamento de documentos e atendimento à população até gestão de emergências e atração de investimentos.
Isoladamente, nenhuma dessas tecnologias parece revolucionária. O interessante começa quando elas deixam de funcionar isoladamente. Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para entender o que está acontecendo.
A diferença está na integração
Se no passado cada aspecto era tratado de forma individual, com uma solução tecnológica, hoje o que acontece é uma integração. A própria cidade passa a ser administrada como um sistema dinâmico, vivo e com seus sub-temas interligados.
O trânsito conversa com o transporte público. O transporte conversa com a meteorologia. O consumo de energia pode ser cruzado com padrões de ocupação. Informações de diferentes departamentos alimentam sistemas capazes de identificar situações anormais e, em alguns casos, antecipar problemas.
É a diferença entre ter vários órgãos inteligentes e ter um organismo capaz de coordená-los.
E aqui aparece uma característica que já encontramos outras vezes em diferentes edições dessa newsletter: a lógica do ecossistema.
Vimos isso quando falamos sobre inovação chinesa, em que copiar, adaptar e recombinar conhecimento pode importar tanto quanto inventar algo completamente novo. Vimos no varejo, quando mostramos que a transformação não estava apenas na loja, mas na integração entre pagamentos, logística, dados e comportamento do consumidor.
Nas cidades, a lógica é parecida. O salto não está necessariamente em inventar cada tecnologia. Está em fazê-las conversar.
Xiongan - uma cidade e sua irmã gêmea
Shenzhen nasceu e depois ficou inteligente. Xiongan está fazendo o caminho inverso. A cerca de 100 quilômetros de Beijing, existe outro experimento ainda mais radical que Shenzhen. Seu nome é Xiongan.
Criada oficialmente em 2017, a Xiongan New Area foi planejada, entre outras funções, para receber atividades que o governo chinês pretende deslocar de Beijing e, ao mesmo tempo, funcionar como laboratório para uma nova geração de desenvolvimento urbano.
A diferença em relação a Shenzhen é fundamental: Shenzhen já existia quando sua infraestrutura digital começou a se sofisticar. Xiongan está sendo construída praticamente do zero.
E isso permitiu fazer algo incomum: construir duas cidades gêmeas ao mesmo tempo. Uma física e outra digital.

O conceito é chamado de digital twin, ou gêmeo digital.
A ideia é criar uma representação digital dinâmica da cidade física. Edifícios, ruas, infraestrutura, redes de energia e água e outros elementos urbanos podem existir também em um ambiente virtual, alimentado continuamente por dados.
Não se trata simplesmente de fazer uma maquete 3D bonita de Xiongan.
A ambição é que o modelo digital acompanhe a cidade ao longo de seu ciclo de vida, planejamento, projeto, construção, operação e manutenção, permitindo que sejam testados cenários antes de alterar a cidade física.
A China Academy of Urban Planning and Design explica que a plataforma desenvolvida para Xiongan conecta planejamento urbano a informações de geologia, transporte, energia, abastecimento de água e meio ambiente. A intenção é utilizar esses modelos para simular sistemas de transporte, água e clima antes de determinadas decisões serem executadas no mundo real.
Um relatório apresentado pela China à International Telecommunication Union em abril deste ano descreve justamente essa evolução: os digital twins chineses começaram permitindo visualizar a cidade; agora caminham para permitir previsibilidade e controle. Xiongan aparece como um dos principais laboratórios desse modelo.
Pense nas possibilidades:
// Antes de mudar uma avenida, é possível simular o impacto no trânsito.
// Antes de construir determinado conjunto de edifícios, testar efeitos sobre consumo de energia, ventilação ou circulação.
// Antes de uma infraestrutura apresentar um problema, dados acumulados podem indicar padrões de deterioração.
Talvez essa seja uma das ideias mais interessantes de Xiongan: a eficiência começa antes de a cidade existir.
Curiosidade: o RG dos prédios
Em Xiongan, a infraestrutura digital começa muito antes de alguém receber a chave de um apartamento.
A plataforma BIM — Building Information Modeling — acompanha os projetos desde o planejamento, passando pelo desenho e pela construção, até sua operação posterior. A cidade está criando, portanto, uma memória digital daquilo que constrói.
Uma pesquisa apresentada à ITU em 2026 destaca justamente o uso pioneiro dessa plataforma para permitir a supervisão digital de todo o ciclo de vida das construções.
É quase como se os edifícios nascessem com prontuário. Não apenas onde estão e como são por fora, mas como foram construídos, que infraestrutura passa por eles e como esses elementos se transformam ao longo do tempo.
Para uma cidade planejada para durar décadas, essa memória pode ser tão importante quanto o concreto.
Da reação para a antecipação
É provavelmente aqui que está a transformação mais importante. As primeiras cidades inteligentes eram essencialmente cidades que foram equipadas com tecnologias. Sensores mediam. Câmeras observavam. Plataformas reuniam. Dashboards mostravam.
A próxima etapa é diferente. Com inteligência artificial, digital twins e grandes volumes de dados históricos, a ambição passa a ser prever e se preparar. Onde o trânsito provavelmente ficará congestionado? Qual equipamento público está começando a apresentar um padrão de falha? Que região terá maior demanda por energia? Como determinada chuva afetará uma área da cidade? O que acontece com o trânsito se uma nova estação for construída naquele ponto?
Mas uma cidade não é um algoritmo
Existe, claro, uma dimensão humana nessa história. Quanto mais integrada for a infraestrutura digital de uma cidade, mais relevantes ficam questões sobre privacidade, segurança dos dados, transparência dos algoritmos e sobre quem fica de fora quando determinados serviços passam a depender de interfaces digitais.
E existe outra pergunta ainda mais simples: eficiência para quem?
Uma cidade pode otimizar o tempo médio de travessia de um semáforo e, mesmo assim, não dar tempo suficiente para um idoso atravessar a rua. Como esse, existem dilemas que não anulam os ganhos produzidos pela tecnologia, mas lembram que a cidade continua sendo humana.
Aqui existe também uma diferença de trajetória entre China e muitos países ocidentais. Na China, é frequente que o poder público coordene a infraestrutura e abra espaço para empresas desenvolverem aplicações dentro dela. Em vários países ocidentais, muitas inovações urbanas fizeram o caminho inverso: surgiram primeiro em empresas ou serviços específicos e depois foram incorporadas (ou reguladas) pelo poder público.
Nenhum dos caminhos elimina os dilemas. Mas eles produzem velocidades, possibilidades de integração e preocupações diferentes.
Tecnologia com propósito
Talvez por isso a discussão chinesa sobre cidades inteligentes esteja começando a mudar.
Depois de anos investindo em infraestrutura digital, sensores, centros de dados e projetos-piloto, a pergunta passa a ser menos “quanta tecnologia existe nesta cidade?” e mais “que problema essa tecnologia está resolvendo?”
Isso importa especialmente agora. O 15º Plano Quinquenal, que cobre o período de 2026 a 2030, coloca mais ênfase na integração entre desenvolvimento tecnológico, renovação urbana, resiliência e qualidade de vida. Não basta digitalizar a cidade. A infraestrutura precisa produzir resultados.
Existe algo bastante chinês nessa mudança de perspectiva: a IA com propósito.
Os dados servem não apenas para conhecer a cidade, mas para fazê-la funcionar melhor.
E o Brasil com tudo isso?
Talvez a comparação mais interessante com o Brasil não seja tecnológica.
Shenzhen e Xiongan operam em uma realidade institucional, demográfica e digital muito diferente da nossa. Seria simplista imaginar que basta importar sensores, plataformas ou um “cérebro urbano” chinês para transformar São Paulo, Rio de Janeiro ou qualquer outra cidade brasileira.
Mas os problemas que essas tecnologias tentam resolver são surpreendentemente familiares. O congestionamento, as enchentes, o tempo de resposta das ambulâncias, o consumo de energia, a manutenção de infraestrutura, as filas em serviços públicos, a poluição, o planejamento de transporte... Nenhum desses problemas é exclusivamente chinês. E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante dessa história.
Em setembro de 2026, um levantamento elaborado por instituições chinesas avaliou 196 cidades das economias da APEC utilizando critérios que incluíam inteligência artificial, transporte inteligente, cooperação regional e governança de IA. Beijing, Shanghai e Shenzhen ficaram entre as cinco primeiras colocadas.
Talvez já não se trate mais de dizer que a China tem muitas cidades inteligentes. O que podemos constatar é algo mais interessante: algumas cidades chinesas estão usando tecnologia para tentar resolver problemas que o Brasil também tem - e, em vários desses casos, os resultados começam a ser mensuráveis.
A pergunta que fica não é se deveríamos construir uma Shenzhen ou uma Xiongan brasileira.
É outra: quais problemas das nossas cidades já poderiam estar sendo tratados de maneira mais inteligente?
Para saber mais:
Artigo sobre Xiongan



