O Ano Novo Chinês de 2026 começa em 17 de fevereiro e marca a entrada no Ano do Cavalo de Fogo (Yang). Para a cultura chinesa, essa não é apenas uma virada de calendário, mas uma mudança de atmosfera.
O Cavalo é o signo do movimento, da autonomia e da inquietação produtiva. Ele carrega a ideia de avanço contínuo, de quem prefere a estrada aberta ao caminho já conhecido. Quando esse signo se combina com o elemento Fogo, a sensação é de aceleração: tudo ganha mais intensidade, visibilidade e urgência.
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Na China, esses símbolos funcionam menos como previsão e mais como chave de leitura do tempo. O Cavalo de Fogo costuma ser associado a anos em que decisões tendem a ser tomadas com mais rapidez, projetos saem do papel e a estagnação passa a incomodar. É uma energia que favorece iniciativa, ousadia e expansão, mas também expõe fragilidades quando falta direção. O fogo ilumina, assim como pode queimar se não for bem conduzido.
Por isso, 2026 tem sido descrito como um ano que pede ação com consciência. Um período propício para se mover, testar, ajustar rotas e assumir protagonismo, sem perder de vista o custo do excesso de pressa. Na leitura cultural chinesa, não se trata de correr mais rápido, mas de não ficar parado quando o tempo pede movimento.
CURIOSIDADE CULTURAL:
A palavra em mandarim para essa data é Guònián (过年), que literalmente significa “atravessar o ano” ou “passar pelo ano". Mas existe uma etimologia fascinante que explica a presença de um dragão nas festividades e o uso de decorações vermelhas. Diz a lenda que Nian era um monstro feroz, que aterrorizava vilarejos no final de cada inverno. O que faz com que Guò Nián também signifique “sobreviver ao Nian". O barulho e fogos de artifício são usados para assustar o monstro.
Abaixo, link para artigo que aprofunda as tradições (fonte da imagem)
Esse momento do ano importa tanto porque traz à tona uma visão filosófica chinesa milenar: a visão cíclica do tempo. Isso é vivido pelas famílias, que se encontram nessa época. Elas se sentam juntas, em torno da mesa farta, contam e celebram sobre o que realizaram no ano que passou. Os rituais são usados para deixar o passado para trás e criar um ponto de partida psicológico para o ano que começa. É o período de buscar a benção dos mais velhos, em respeito à ancestralidade e a “piedade filial” (um dos princípios do Confucianismo).
Muitas são as superstições em torno dessa virada de ano (sim, os chineses têm os correspondentes aos nossos pulinhos nas ondas!). Dentre elas:
// faxinar a casa, para não deixar a “sujeira” entrar no novo ano
// pagar dívidas, para que elas sejam deixadas para trás
// cortar os cabelos antes do Ano Novo, como um ato de limpeza espiritual e também de respeito aos mais velhos, que serão visitados - o corte é visto como uma expressão de cuidado pessoal
// nunca cortar no dia no Ano Novo, para não cortar a prosperidade, já que cabelo (发, fà) tem o mesmo som de ficar rico ((发财, fācái)
As ruas ficam lindas com as lanternas vermelhas (foto tirada pela Patricia, co-autora da Decode China)
Aqui o vídeo promocional da Shanghai Shining, o festival de luzes da cidade de Shanghai. Vale assistir pela beleza e para entender de que forma o cavalo toma forma nessa virada de ano.
Com esse espírito, desejamos aos leitores e leitoras do Decode China um Feliz Ano Novo Chinês, que o Cavalo de Fogo traga energia bem direcionada, clareza nas decisões e coragem para avançar.
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Da educação universal - para todos - à competição de elite
fev 02, 2026
Se você quer entender de que forma a estratégia desenhada para melhorar a educação no país está ligada aos avanços econômicos da China, essa newsletter é para você.
Nesta edição, mergulhamos na história da modernização educacional chinesa para entender como o país transformou a educação em um pilar estratégico de seu projeto de nação. Vamos ver como na China moderna, a máxima “a educação é a base de tudo” foi levado ao pé da letra.
Em pouco mais de 70 anos, o país saiu de um cenário onde 80% da população era analfabeta para construir o maior e mais ambicioso sistema educacional do planeta.
Como sempre, na China nada é por acaso.
Um conceito importante para entender algumas dinâmicas chinesas: o hùkǒu
Antes de mergulharmos na jornada educacional, precisamos entender uma peça-chave do quebra-cabeça social chinês: o sistema hùkǒu (户口). Pense nele como um registro de residência que, com base no local de nascimento, determina onde um cidadão pode acessar serviços sociais essenciais, como saúde, moradia e educação.
Na prática, isso cria uma divisão crucial entre os que têm um hùkǒu urbano e os que têm um hùkǒu rural. Se uma família de uma pequena vila se muda para uma metrópole como Beijing, seus filhos não são automaticamente proibidos de estudar lá, mas enfrentam uma série de barreiras. Por serem considerados residentes temporários podem não ter acesso às melhores escolas públicas ou aos mesmos subsídios que os moradores locais.
A verdadeira barreira aparece no final do ensino médio. O sistema do hùkǒu muitas vezes exige que os estudantes prestem o temido gāokǎo (o vestibular chinês, do qual ainda falaremos aqui) em sua cidade de origem, não onde vivem e estudaram. Isso força muitas famílias a uma escolha dolorosa: algumas famílias se separam, enviando o filho de volta para a cidade natal, outras migram para cidades maiores alguns anos antes do gāokǎo, em uma busca de um hùkǒu urbano que garanta melhores oportunidades.
Custo da educação na China: escola pública ou privada?
Para entender os gastos com educação na China, é preciso abandonar a lógica ocidental. O sistema é um mosaico de acesso público, domínio privado e custos compartilhados, com uma estrutura bem definida para cada fase da vida do estudante.
Educação Infantil (Até 6 anos): domínio do ensino privado
A jornada começa, na Educação Infantil, com o setor privado recebendo a maior parte dos alunos. Nesse estágio, escolas públicas subsidiadas pelo governo são uma opção, mas as poucas vagas são preenchidas por sorteio ou a famosa rede de conexões (guānxi- 关系).
Atualmente, o custo com a educação infantil representa uma despesa considerável para as famílias, o que é um fator relevante se analisado em conjunto com o declínio da taxa de natalidade.
Educação Básica Obrigatória (6 a 15 anos): gratuita, pública e universal
Hoje, todas as crianças entre 6 e 15 anos estão matriculadas em uma escola. A educação básica obrigatória é gratuita e fornecida por escolas públicas, mas há uma crescente presença de escolas privadas e internacionais, especialmente nas grandes cidades.
CURIOSIDADE CULTURAL:
Como regra, os cidadãos chineses não podem frequentar escolas internacionais, independentemente do poder aquisitivo (exceto se tiverem vivido fora do país por período significativo ou tiverem passaporte estrangeiro). Porém, existem escolas públicas bilíngues, um projeto de vanguarda, destinado a uma elite acadêmica, que ensina inglês sem comprometer os valores ideológicos.
Ensino Médio e Superior: o fim da gratuidade e o início do custo compartilhado
A partir dos 15 anos, os estudantes chineses pagam pela educação, mesmo em escolas públicas. Mas, em comparação com padrões ocidentais, as mensalidades são baixas devido a um sistema complexo de subsídios estatais, além da existência de diversos programas de apoio financeiro para os estudantes.
O custo anual do Ensino Médio gira em torno de RMB 1.500-5.000 (US$ 220 a 720), com as regiões mais desenvolvidas do país já em fase de transição deste nível de ensino para a gratuidade universal.
Já o Ensino Superior, em universidades públicas, como exemplo, tem mensalidades que variam de RMB 3.000 a 10.000 por ano (US$ 430 a 1,400) para a maioria dos cursos, e RMB 8.000 a 15.000 (US$ 1,150 a 2,160) para cursos de Arte, Medicina e Engenharia.
Pela lógica do Governo, a gratuidade do Ensino Superior foi abolida com base na filosofia de que se trata de um investimento no próprio futuro, que gera benefícios individuais (melhores salários) e que, portanto, deve ser um custo compartilhado entre o Estado e a família. Sem esse compartilhamento, o país não conseguiria financiar a expansão massiva que era necessária para o bem coletivo.
O lema oficial é: “Nenhum aluno será deixado para trás devido a dificuldades financeiras.”
Como funciona a jornada educacional na China
A educação infantil não é obrigatória. Mas as crianças geralmente começam aos 3 anos no Jardim de Infância. É aos 6 anos que tem início a educação básica obrigatória, que dura 9 anos, dividida entre a Educação Primária e o Ensino Médio Inferior.
Após o 9º ano, o ensino deixa de ser obrigatório, mas ainda assim é uma exigência social. O Ensino Médio Superior tem duração de 3 anos, podendo ser acadêmico ou profissionalizante. Para os alunos que seguem a via acadêmica, há a possibilidade de ingressar no Ensino Superior, com duração de 2 a 5 anos. Mas sobre essa transição - do Médio para o Superior - ainda iremos explorar bastante aqui em nossa edição.
CURIOSIDADE CULTURAL
O ritual da soneca obrigatória após o almoço é institucionalizado nas escolas de Educação Infantil da China, conforme a Diretriz Operacional para Jardins de Infância. Não é raro que essas crianças (3 a 6 anos) tenham uma longa jornada e passem 9 a 10 horas por dia na escola. Por isso, após o almoço, todas são encaminhadas para o soninho de cerca de 2 horas. Essa prática não só atende às necessidades fisiológicas segundo a Medicina Tradicional Chinesa, mas também simboliza disciplina - e um momento para suprimir necessidades individuais em prol da harmonia coletiva.
Política de rotação de professores para a redução da desigualdade educacional
Na China, a carreira dos professores das escolas públicas, do ensino fundamental ao médio, é regida pelas regras do serviço público local (provincial, municipal ou distrital). Eles são, em sua maioria, funcionários públicos, e suas condições de trabalho e progressão de carreira são determinadas por essas normas.
A política de rotação de professores tem sido uma ferramenta importante para combater a desigualdade educacional. Com ela, os professores de melhor desempenho são designados para escolas com resultados mais baixos, numa tentativa de equalizar as condições de ensino entre as diferentes regiões do país. Esse processo, que pode durar de 1 a 3 anos, permite aos professores que participam receber benefícios como subsídios financeiros e pontuações extras para futuras promoções.
A meritocracia chinesa na educação, do Império ao século XXI
O sistema de exames da China, que hoje se manifesta no zhōngkǎo (definição do ensino médio a ser cursado) e no gāokǎo (acesso ao ensino superior), não é apenas um processo seletivo acadêmico, mas a evolução de uma tecnologia de governança desenvolvida há mais de mil anos. A origem desses exames remonta ao sistema imperial, criado para resolver um desafio logístico e político em um país de dimensões continentais: identificar talentos para a administração do Estado e transformar potenciais líderes dissidentes em funcionários do governo.
Desde então, muita coisa mudou, o que não mudou foi a competitividade e meritocracia. A lógica estrutural foi preservada e refinada pelo Estado moderno.
* Mobilidade social: o sistema é projetado para oferecer um canal de mobilidade social baseado no mérito. Para as famílias, o sucesso no gāokǎo é um requisito fundamental para manter ou elevar o status socioeconômico.
* Função de equilíbrio: ao fornecer uma trajetória clara e previsível de ascensão social, os exames funcionam como uma “força estabilizadora” para a sociedade chinesa, garantindo que o talento nacional seja canalizado para o fortalecimento do país.
* Legitimação e lealdade: permanece como objetivo o desenvolvimento de indivíduos talentosos que operem dentro do núcleo central da estrutura do Partido Comunista Chinês.
Não é exagero dizer que os exames definem o futuro dos estudantes.
Por volta dos 15 anos, ano final do 9º ano, os alunos prestam o zhōngkǎo. Por política pública, cerca de 50% dos estudantes são direcionados para o ensino profissionalizante e apenas 50% têm acesso às universidades. A seleção é meritocrática, ou seja, a nota de corte do zhōngkǎo define o destino dos alunos, independentemente de sua condição social ou geográfica.
Dependendo do desempenho no zhōngkǎo, o aluno será encaminhado para um Ensino Médio Acadêmico, mais prestigiado e voltado para a preparação para a universidade, ou para um Ensino Profissionalizante Secundário, que oferece formação técnica. Estes últimos dificilmente terão a chance de ingressar em uma universidade na China.
CURIOSIDADE CULTURAL:
Em julho de 2021, o Governo chinês implementou a “Double Reduction” Policy, uma mudança drástica no sistema educacional. O objetivo foi combater a desigualdade educacional, reduzir a pressão financeira e acadêmica sobre as famílias e também lidar com a queda da taxa de natalidade no país. Como parte dessa política, atividades como aulas extras nos finais de semana e tutoriais virtuais de tutores estrangeiros foram proibidas. A indústria de tutoria privada, que movimentava bilhões de dólares, foi desmantelada, mas os tutores continuaram a atuar, de forma mais discreta e cara.
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Em 2025, as maiores empresas de tecnologia restringiram seus serviços (especialmente o uso de IA) nas horas da realização do exame
O exame chinês de admissão para o ensino superior, o gāokǎo (高考), mobiliza o país por dois dias. Em 2025, mais de 13 milhões de estudantes se inscreveram para o gāokǎo. Isso equivale à população inteira da Bélgica prestando o mesmo exame no mesmo dia.
O gāokǎo representa o momento de maior pressão para estudantes chineses que desejam entrar em uma universidade. Ele é, de fato, a única forma de ingresso nas universidades públicas do país. A prova inclui Chinês, Matemática, Inglês, e, dependendo da área escolhida pelo estudante, Ciências ou Humanidades.
O gāokǎo pode durar de 2 a 4 dias, dependendo das matérias escolhidas, e envolve uma pressão imensa. Durante esses dias, a China praticamente para, com cidades mobilizadas para garantir a segurança dos estudantes e até com escolta de ônibus. Milhares de pais se aglomeram em frente às escolas, orando pela aprovação dos filhos.
O resultado do gāokǎo define não apenas o futuro acadêmico, mas também o futuro profissional e, em muitos casos, o status social do candidato. O nome da universidade ainda é o fator mais relevante na conquista do primeiro emprego, e o network proporcionado por essas universidades também garante salários iniciais 20-30% mais altos.
Para os que se destacam, o destino são universidades de elite como Tsinghua (a "MIT da China") e Pequim (a "Harvard da China"), além de Zhejiang, Jiao Tong e Fudan. A competição é feroz: mesmo em regiões menos concorridas, alunos precisam estar entre os 0,5% a 1% melhores. Em províncias mais competitivas, isso cai para 0,03% a 0,07%. O nome da universidade garante salários iniciais 20-30% mais altos.
O ‘milagre econômico’ e o papel da educação
Os economistas Ruixue Jia (UC San Diego) e Hongbin Li (Stanford) passaram décadas estudando o gāokǎo e lançaram, em 2025, o livro “How the Gaokao Shapes China”. Segundo os autores, a educação teve um papel fundamental em trazer a China ao que ela é hoje. Mais precisamente, argumentam que um terço do crescimento econômico se deve à estratégia que a China vem desenvolvendo nas últimas décadas.
//O multiplicador de “capital humano”: desde o final dos anos 90, a expansão radical pela qual a China passou multiplicou o capital intelectual do país. As inscrições no Ensino Superior cresceram de menos de 3% em 1990 para quase 60% no começo dos anos 90.
//Retornos de renda: os economistas estimam que para cada ano adicional de escola na China, a renda individual aumenta perto de 10%. Em uma escala nacional, isso cria uma força de produtividade gigante, assim como receita tributária, sem falar na força massiva do consumo.
// Transição tecnológica: o livro defende que a educação facilitou a evolução da China de uma economia “intensiva em trabalho” (manufatura de baixo custo) para uma economia “intensiva em conhecimento” (knowledge-intensive), que permitiu o desenvolvimento tecnológico do país.
Educação como projeto de futuro
Na China, falar de educação mobiliza toda a família. O Estado tem plena consciência disso e trata o tema como uma prioridade de longo prazo, refletindo a visão de que o capital humano é fundamental para o desenvolvimento do país.
Em um país tão focado em tecnologia e educação, não poderia ser diferente: a integração da tecnologia no ensino está ocorrendo de forma acelerada. Salas de aula inteligentes, com tablets interativos que fornecem feedback em tempo real; IAs que transformam desenhos em imagens realistas para engajar os alunos; plataformas que avaliam o desempenho dos alunos e monitoram o bem-estar mental.
Depois de termos explorado a estrutura do sistema educacional chinês, vamos deixar para uma próxima edição (eba!) as novidades tecnológicas que estão transformando esse sistema, bem como os desafios que surgem com o uso crescente de tecnologias educacionais.
Para seguir nos acompanhando, você tem que nos seguir.
Se você acompanha nossos conteúdos (em breve vamos completar um ano de Decode China!) já entendeu que o “jogo” da China é planejado, pragmático e muito bem executado. Por isso, não vai se surpreender ao descobrir que também é assim que funciona o desenvolvimento da inteligência artificial no país liderado por Xi Jinping.
Essa edição encara o desafio de entender a complexa estratégia chinesa para a IA. Com isso vamos passar pelos planos quinquenais, pelas gigantes da tecnologia chinesa, pelos comos e porquês que nos ajudam a desvendar o plano que o país tem para o futuro - e de que forma a inteligência artificial é parte da essencial deste plano.
Imagem gerada por IA - os caracteres significam “inteligência artificial", formado por palavras que literalmente podem ser traduzidas como “inteligência feita por humanos" (rén gōng zhì néng)
Você já deve ter ouvido uma frase parecida com “vai dominar o mundo quem ganhar a corrida da inteligência artificial”. Se isso é verdade, não sabemos. Mas, com toda certeza o desenvolvimento da IA está no cerne das prioridades chinesas.
No 15º Plano Quinquenal (outubro 2025), que abrange o planejamento para os anos de 2026 a 2030, uma das principais diretrizes da China é a busca pela autonomia científica e tecnológica. O plano estrutura um caminho duplo: de um lado, superação dos pontos de estrangulamento tecnológico - para vencer as dependências de outros países, de outro lado, a construção de motores de crescimento - para liderar novas tecnologias e indústrias.
Os investimentos e a dedicação voltados à IA se encaixam com perfeição no objetivo de liderar tecnologias emergentes e estratégicas. Garantir liderança e segurança em modelos de IA de próxima geração, inteligência integrada, chips especializados… significa garantir os alicerces para o poder nacional e econômico de longo prazo.
No cenário internacional, é inegável dizer que o domínio sobre tecnologias como a inteligência artificial também interfere na percepção pública sobre quais nações possuem poder e influência global. Especialistas em relações internacionais descrevem isso como parte de uma estratégia mais ampla de soft power.
Mas, independentemente da narrativa internacional, entendemos que o que realmente anda acontecendo no dia a dia da China é o que merece destaque nessa edição: o país vem desenvolvendo IAs para resolver problemas concretos em setores como agricultura, saúde, mobilidade, manufatura e finanças. Isso vem acontecendo de forma intencional e consistente, com base em planos nacionais, que vamos relatar a seguir.
Howard Yu, em seu brilhante artigo que compara o papel da IA na China e nos EUA, nos brinda com uma pergunta muito simples, mas que pode ser bem reveladora:
“Vamos parar de nos perguntar: ’quem tem a melhor IA?’ e ao invés disso, perguntar ‘onde a tecnologia transforma o progresso em algo visível?’”
Números que revelam estratégias
Quando falamos em investimento (capital privado) em IA, os Estados Unidos são imbatíveis. Se destacam com valores muito superiores aos da China, como podemos ver no gráfico abaixo. O que o gráfico não mostra é que o cenário do investimento em IA é caracterizado por uma extrema concentração. Nos EUA, um pequeno grupo de 5 a 7 empresas (incluindo Amazon, Microsoft, Google, Meta, Nvidia, e as startups que elas financiam como OpenAI e Anthropic) controla a vasta maioria do capital, da infraestrutura e, consequentemente, do poder de desenvolvimento no setor de IA.
Na China, a estratégia é fundamentalmente diferente: há descentralização de investimento em capital humano e conhecimento.
Investe-se massivamente em pesquisadores, em papers acadêmicos e no desenvolvimento de patentes, criando uma base ampla de talento e inovação distribuída pelo país. Essa abordagem descentralizada cria redundância estratégica e reduz a dependência de empresas individuais.
Mapa que compara a quantidade de organizações que produziram mais de 50 publicações nos EUA e na China
No âmbito das patentes, a China domina absolutamente, com 70% de todas as patentes de IA globais. Isso representa um crescimento de +56 pontos percentuais em apenas 13 anos. A maioria delas é apenas registrada localmente e tem baixa taxa de concessão, o que faz com que esses números não possuam necessariamente um impacto significativo no âmbito global. Mas, por outro lado, esse crescimento também sinaliza a força do desenvolvimento de ecossistemas locais, em um país cujos últimos planos quinquenais apontam para o caminho da autossuficiência tecnológica.
Na corrida das patentes, analistas apontam para uma distinção importante: os EUA ainda mantêm uma vantagem em “patentes de alto impacto” e modelos de ponta. Muitas das patentes chinesas são focadas em aplicações práticas e melhorias incrementais. Esse fato reflete a estratégia do país de rápida implementação e comercialização de soluções, em contraste com o foco americano em pesquisa fundamental e arquiteturas de modelos inovadores.
> > > Você sabia que somadas, as comunidades de doutorado e pós-doutorado em IA da China já são duas vezes maiores do que toda a população de profissionais de inteligência artificial nos Estados Unidos?
Aquium artigo bem completo e recente sobre a relação entre desenvolvimento tecnológico e geopolítica).
AI Plus: o top-down chinês e sua eficácia
Enquanto no Ocidente a inovação em IA é impulsionada pela iniciativa privada, na China, o Estado atua como o maestro de uma orquestra, coordenando cada passo e movimento. A abordagem é sempre centralizada, planejada e executada com uma visão de longo prazo. Já falamos disso aqui no Decode China em diversas edições (se quiser relembrar uma das passagens, veja essa aqui, sobre o sistema de metas da China, que define a forma como os prefeitos governam).
A estratégia chinesa fica clara em planos como o “Made in China 2025”, lançado em 2015, e os últimos planos quinquenais, que elevam IA a prioridade nacional.
O mais recente desdobramento da visão chinesa sobre IA é a iniciativa “AI Plus”, lançada em agosto de 2025. O objetivo revela a visão do papel da IA como um ecossistema e uma infraestrutura, com um plano para integrar a tecnologia em praticamente todos os setores da economia. O plano é estruturado em torno de seis áreas-chave que mostram a amplitude da ambição chinesa:
Ciência e Tecnologia: acelerar a descoberta científica e a inovação em P&D com o uso de IA
Desenvolvimento Industrial: integrar a IA em toda a cadeia produtiva, da agricultura à indústria, para criar novos modelos de negócio e aumentar a eficiência
Melhoria da Qualidade do Consumo: desenvolver novas aplicações de consumo, como dispositivos inteligentes e assistentes pessoais, para enriquecer a vida cotidiana
Qualidade de Vida: aplicar a IA em áreas como educação, saúde, cultura e esportes para melhorar os serviços públicos e o bem-estar da população
Governança: modernizar a administração pública com o uso de IA para otimizar serviços, melhorar a segurança e a gestão de emergências
Cooperação Global: promover um sistema aberto de cooperação em IA, participando ativamente da governança global da tecnologia
Os titãs da tecnologia e a nova onda de campeões de IA
Uma das características mais marcantes da economia chinesa é a convergência estratégica entre o Estado e o setor privado. O governo sinaliza prioridades nacionais— como na iniciativa “AI Plus”— e as grandes empresas de tecnologia se alinham a esses objetivos para garantir apoio e acesso ao mercado. Se você fosse CEO de uma grande empresa chinesa, seu sucesso dependeria de alinhar sua estratégia aos macro objetivos do país.
Nesse ecossistema, as gigantes da tecnologia, conhecidas como BATX (Baidu, Alibaba, Tencent e Xiaomi), desempenham um papel central. Embora o governo as tenham designado como líderes em áreas específicas para impulsionar o desenvolvimento nacional — Baidu em carros autônomos, Alibaba em cidades inteligentes e Tencent em saúde, existe uma competição acirrada nos setores estratégicos. Na saúde, por exemplo, a Tencent investiu na plataforma de telemedicina WeDoctor e desenvolveu o sistema de diagnóstico por imagem Tencent Miying, enquanto o Alibaba opera a AliHealth e seu modelo de IA “Doctor You”. Na educação, startups como Squirrel AI e Liulishuo lideram com tutoria adaptativa e ensino de idiomas, mas as gigantes também marcam presença com suas próprias divisões, como o Tencent Education e o Alibaba Cloud Education.
Também existe uma nova onda de campeões de IA surgindo, com estratégias inovadoras que desafiam o status quo. A DeepSeek, por exemplo, ganhou fama mundial em 2025 com seu modelo de IA de código aberto. Em dezembro de 2025, a startup lançou o DeepSeek V3.2, um modelo open-weight que, segundo a empresa, performa no mesmo nível dos modelos mais recentes da OpenAI e Google, superando-os em alguns benchmarks-chave de matemática. A abordagem open-source não apenas democratiza o acesso à tecnologia, mas também sinaliza uma mudança na filosofia de desenvolvimento de IA na China. O diferencial da DeepSeek está na eficiência: seus modelos usam menos recursos computacionais para treinar e custam menos para desenvolvedores executarem do que os modelos de laboratórios ocidentais.
Já a ByteDance, controladora do TikTok, aposta na IA para recomendação de conteúdo e está investindo pesado em IA generativa. Seu chatbot Doubao já conta com mais de 140 milhões de usuários mensais e a empresa está adotando uma estratégia ambiciosa de integração: em dezembro de 2025, lançou um agente de IA que pode ser integrado ao sistema operacional de smartphones, dando-lhe controle sobre qualquer aplicativo. Alguns exemplos do que o agente pode fazer: usar o app da Tesla para abrir o porta-malas usando comandos de voz, buscar os menores preços em diferentes plataformas de e-commerce e melhorar fotos com IA.
Essas empresas representam duas estratégias distintas no ecossistema de IA chinês: enquanto a DeepSeek compete na corrida de modelos cada vez mais capazes, a ByteDance foca em integrar suas ferramentas de IA no dia a dia das pessoas. Ambas abordagens refletem uma realidade comum: empresas chinesas focadas em difundir a IA através de sistemas industriais, infraestrutura urbana e serviços cotidianos para a população.
Futuro e desafios: a complexidade da governança (e da geopolítica)
Uma das diferenças mais fascinantes entre a China e o Ocidente reside na filosofia por trás do desenvolvimento da IA. Enquanto as grandes empresas de tecnologia ocidentais buscam criar modelos de IA universais, o chamado “one-to-all”, capazes de realizar uma vasta gama de tarefas com um único modelo, a China adota uma abordagem mais pragmática e especializada. Como vimos, a iniciativa “AI Plus” reflete essa visão: o foco não é criar uma única superinteligência universal, mas sim desenvolver IAs específicas e otimizadas para resolver problemas concretos.
Apesar dos avanços, a jornada da China não é livre de obstáculos, sendo o principal deles a “guerra dos chips”— disputa geopolítica onde Washington impõe restrições à exportação de semicondutores avançados desde 2018, intensificadas em 2022, limitando o acesso da China aos chips mais poderosos, como as GPUs da Nvidia, essenciais para o treinamento de grandes modelos de IA.
A resposta chinesa está em curso: um projeto estratégico em Shenzhen busca desenvolver máquinas de litografia de ultravioleta extremo (EUV), tecnologia-chave para a produção de chips de ponta. Este esforço envolve engenheiros recrutados de empresas ocidentais e é coordenado, em parte, pela Huawei. Um piloto do projeto foi completado em início de 2025 e já está operacional, com metas de produzir chips funcionais entre 2028 e 2030.
O projeto de Shenzhen mostra como a China está trabalhando seu plano de construir uma infraestrutura doméstica para alcançar autossuficiência em semicondutores.
Na esfera da governança, alguns movimentos demonstram um protagonismo na busca por uma liderança global. De forma concreta, a China esteve entre os primeiros países a criar regulações específicas para IA, a partir de 2022, em temas como conteúdos considerados nocivos, privacidade e segurança de dados. Ou seja, modelos como os desenvolvidos pela DeepSeek estão entre os mais regulados do mundo, segundo Joanna Bryson, cientista da computação e pesquisadora em ética de IA na Hertie School, em Berlim.
Seria a visão da população chinesa uma possível inspiração para o Brasil?
Voltando ao tema pelo qual começamos: o das narrativas. Em termos de soft power, pode até parecer que a China ainda não investiu na criação de um storytelling estruturado para divulgar como pretende ser percebida pelas outras nações em relação a IA. Sem dúvida, se e quando isso acontecer, o jogo vai ganhar novas dimensões.
Mas para a sua própria população, com sua propaganda interna, é sabido que desde muito tempo a China sabe construir narrativas. Isso não tem sido diferente com a IA.
Enquanto o Ocidente debate os riscos da IA com apreensão, a China abraça a tecnologia com entusiasmo notável. A China desponta como o país com a maior positividade: menor apreensão e maior empolgação, segundo a pesquisa IPSOS AI Monitor (2024).
O gráfico da pesquisa da IPSOS nos mostra os níveis de apreensão (axis vertical - “nervous”) e o nível de empolgação (axis horizontal - “excited”)
Outros dados deste estudo mostram como chineses percebem que “produtos e serviços usando IA mudaram profundamente minha vida nos últimos 3-5 anos”. Enquanto 78% dos chineses concordam com essa afirmação, no Brasil esse índice é de 53% e nos EUA 37%. Isso mostra o papel que a tecnologia tem na vida cotidiana das pessoas na China.
Ainda segundo o estudo, 80% dos chineses estão entusiasmados com produtos e serviços que usam IA, comparado a 56% no Brasil, 40% no Canadá e 39% nos EUA. Os dados nos revelam como a China possui visões diferentes sobre o futuro, comparativamente a outros países, especialmente a “anglosfera”. Essa diferença não é sobre tecnologia; é sobre confiança social e narrativas sobre quem captura o valor do progresso.
No Ocidente, as pessoas temem que a IA beneficie apenas os ricos, deixando a classe trabalhadora para trás. Na China, há uma percepção de que o progresso é tangível e que o Estado pode frear excessos corporativos.
Os chineses vivem no dia a dia os trens de alta velocidade, o acesso instantâneo a serviços pelo celular, os pagamentos cashless, os carros inteligentes. A IA é a tecnologia nada abstrata que torna possível essa realidade visível.
O Brasil fica no meio do caminho: os dados refletem uma realidade onde há esperança de que a tecnologia possa trazer progresso, mas também preocupações legítimas sobre quem se beneficiará. Talvez seja propício abrirmos nossos olhos para o caminho chinês, como propõe Ronaldo Lemos:
“As IAs americanas são modelos de grande ‘sabedoria’, mas ainda divorciadas da realidade prática. As chinesas pensam a sabedoria como algo instrumental, para resolver problemas que existem aqui e agora.”
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Relatório que analisa o cenário global atual da pesquisa em IA, com foco na China, na UE-27, no Reino Unido e nos Estados Unidos, identificando tendências-chave e mudanças geopolíticas que reforçam a importância estratégica da inteligência artificial.
Matéria na revista Science sobre a análise de publicações sobre IA.
O conceito de 'tier cities' e as cidades sobre as quais você ainda vai ouvir falar
dez 01, 2025
Quando pensamos na China contemporânea, nossa imaginação quase sempre voa direto para Shanghai, Beijing, Shenzhen e Guangzhou. Essas cidades se tornaram a moldura mental de um país com mais de 1,4 bilhão de pessoas.
Mas existe uma China que raramente atravessa o nosso campo de visão. Uma China que pulsa fora das metrópoles e que, pouco a pouco, assume o protagonismo silencioso do próximo ciclo de crescimento. Uma China que se revela em nomes como Hefei, Wuxi e Jinhua, quase invisíveis no radar internacional, mas gigantes em escala, ambição e impacto econômico.
Lago artificial na cidade de Hefei
Essas três cidades, por exemplo, têm populações que superam países inteiros: Hefei com 9,57 milhões de habitantes (mais do que a Suíça), Wuxi com 7,5 milhões e Jinhua com 7,13 milhões (mais do que o Paraguai). Cada uma delas com PIB equivalente ao de nações: US$ 180 bilhões, US$ 215 bilhões e US$ 83 bilhões, respectivamente. E todas profundamente conectadas a cadeias industriais, tecnológicas e logísticas que moldam o cotidiano chinês e, muitas vezes, o nosso também.
Hefei abriga o “Sol Artificial”, um dos reatores de fusão nuclear mais avançados do mundo, a NIO (fabricante de carros) e a USTC, uma das instituições acadêmicas mais prestigiadas da Ásia, chamada de “o MIT da China”. Já Wuxi é um centro sofisticado de manufatura e semicondutores, com forte presença de empresas como SK Hynix e clusters de IoT e biotecnologia. E Jinhua é o coração pulsante do comércio de baixo custo, onde o Mercado de Yiwu se tornou destino diário de comerciantes estrangeiros em busca de produtos que abastecem lojas, aplicativos, bazares e marketplaces no mundo inteiro.
Essas cidades chinesas não são Tier 1 e não aparecem nos itinerários de viagem, mas são decisivas para entender o que está acontecendo com a China. Hefei é uma cidade de Tier 2, Wuxi de Tier 3 e Jinhua de Tier 4.
Yiwu, o maior mercado atacadista do mundo, localizado em Jinhua
O que quer dizer a classificação das cidades chinesas por tiers (que vão do 1 ao 5)?
Os tiers (níveis) não são um sistema oficial de classificação das cidades na China, mas funcionam como uma lente que revela o estágio de desenvolvimento industrial, urbano, social e tecnológico de um município — e sugerem o grau de maturidade da sua economia e, por consequência, do mercado consumidor.
A classificação varia dependendo da fonte, mas geralmente envolve critérios como população, PIB, renda, infraestrutura (aeroportos, metrôs, trens-bala), densidade de serviços, diversidade industrial, logística, custo de vida e capacidade de atrair talentos.
Essa classificação é dinâmica: cidades sobem ou descem de tier conforme entregam resultados, assim como as autoridades responsáveis por essas cidades, que também são avaliadas por KPIs e são promovidas ou realocadas conforme sua performance — como discutimos na edição sobre o sistema de metas da China.
A ideia de tiers nasceu da necessidade de empresas e consultorias entenderem melhor a organização urbana e econômica do país. E quando uma cidade entra em um plano nacional, tudo muda rapidamente, ela pode passar de um tier para o outro em um piscar de olhos.
Como a lista não é oficial, há outros rankings com números diferentes (fonte do ranking acima: Daxue Consulting)
Um dos melhores exemplos de evolução de tier é Guiyang, na província de Guizhou. Era uma das regiões menos desenvolvidas e mais montanhosas do país. Mas reunia três características valiosas: clima de 15ºC (ideal para data centers), energia hidrelétrica abundante e estabilidade geológica. A partir do 14º Plano Quinquenal, a economia digital foi considerada motor central do crescimento nacional e a instalação de data centers passou a ser crucial. Guiyang foi identificada como o lugar ideal para ser a sede do Big Data Comprehensive Pilot Zone, passando a investimentos públicos em infraestrutura de fibra ótica, além de incentivos fiscais e projetos nacionais de tecnologia. Em poucos anos, se tornou o lar de data centers da Apple, Huawei, Tencent e Alibaba Cloud. Desde 2014, suas taxas de crescimento do PIB frequentemente superaram 10% — resultado direto de uma estratégia nacional traduzida em política local.
Essa é a lógica: na China, uma cidade não é apenas um município, mas sim uma unidade estratégica de desenvolvimento.
Um mapa mercadológico: a diferença no consumo entre os tiers
Quando olhamos para essas cidades emergentes, fica claro que não é só a geografia que muda, mas também o consumo. A renda da população pesa de forma decisiva nas escolhas das empresas e isso se traduz em mapas mentais diferentes entre as metrópoles e as cidades em ascensão.
Imagine que você é uma grande marca ou rede de serviços que precisa fazer escolhas de onde e como abrir novas lojas. Em Shanghai ou Beijing, a disputa será pela novidade premium: marcas de luxo, edições especiais, lançamentos que chegam primeiro e encontram um público acostumado a navegar num mar de opções sofisticadas. Mas basta descer um ou dois degraus na lógica dos tiers e o retrato muda.
Nas cidades de tier 2 e 3, cresce o apetite por aquilo que chamam de affordable luxury: produtos com boa qualidade, design interessante e preços mais possíveis.
Compreender essas diferenças é o que permite identificar oportunidades reais num país onde a padronização é ilusória e o consumo é profundamente situado. Em outras palavras: a China é grande demais para qualquer leitura única.
Vamos entender como cada tier abre portas para caminhos de crescimento totalmente distintos?
Tier 1 e as “Novas Tier 1”: as vitrines que já conhecemos
Quando falamos das Tier 1 — Shanghai, Beijing, Shenzhen e Guangzhou — estamos falando de cidades que já se tornaram símbolos globais. São os laboratórios visíveis da modernidade chinesa, onde surgem as primeiras lojas de conceito, os testes de carros autônomos, os shoppings monumentais e os lançamentos que depois se espalham pelo país.
Ao redor delas, as chamadas “Novas Tier 1” — dentre elas Chengdu, Hangzhou, Chongqing, Wuhan — funcionam como metrópoles nacionais, articulando ecossistemas regionais, sediando gigantes digitais e moldando comportamentos de consumo que se espalham pelo resto da China.
Mas o dado mais importante é este: apesar de toda essa visibilidade, essas 8 cidades concentram apenas 9% da população chinesa, embora respondam por 21,5% do PIB. O que significa que o país real, numericamente falando, está muito além dessas metrópoles.
E é justamente esse “além” que vem ganhando protagonismo.
A grandiosidade que vive nas cidades Tier 2, 3 e 4
As cidades de Tier 2 são capitais regionais fortes. Podem não ter a monumentalidade de Shanghai, mas possuem um dinamismo urbano impressionante. Qingdao, por exemplo, combina uma economia marítima robusta com clusters produtivos que abastecem o país inteiro. São cidades com um mercado consumidor sofisticado o bastante para atrair marcas internacionais, mas com características regionais que moldam um estilo de vida próprio.
Qingdao por vezes é chamada de “cyberpunk city” por causa das luzes que acendem todas as noites e transformam o skyline da cidade
As Tier 3 vivem uma transformação intensa. São cidades médias que ainda estão experimentando uma urbanização acelerada, com bairros inteiros surgindo em poucos anos, linhas de metrô recém-inauguradas, parques tecnológicos em expansão e uma classe média crescente que redefine padrões de consumo. Visitá-las é como revisitar, em câmera acelerada, aquilo que Shanghai viveu nos anos 1990: uma sensação de movimento contínuo, construção e expectativa.
Nanchang, cidade de tier 3
Nas cidades de Tier 4, o retrato é ainda mais fascinante. São menores, mas profundamente conectadas à lógica nacional. Aqui, as políticas de desenvolvimento ganham corpo de forma particularmente visível: um novo viaduto, uma estação de trem-bala ou uma zona industrial pode alterar completamente o destino da cidade e das suas famílias. São os lugares onde a modernização se encontra com a vida cotidiana de maneira mais palpável.
Vista panorâmica de Linfen (tier 4), à noite
A mesma cidade de tier 4, Linfen, que 10 anos atrás era considerada a cidade mais poluída do mundo, hoje é uma cidade que possui uma frota de 132 ônibus elétricos em cores divertidas como verde e rosa pastel.
O verdadeiro motor do crescimento está nos “emerging-tier markets”
Então, chegamos ao ponto central: o próximo salto econômico da China não virá das Tier 1, mas sim das cidades Tier 2, 3 e 4.
De acordo com a Daxue Consulting, essas cidades:
concentram 55% a 65% da população chinesa
respondem por 40% a 45% do PIB
e devem alcançar RMB 110 trilhões em 2025
são responsáveis por dois terços do crescimento do consumo no país
É aqui que surgem fenômenos culturais e econômicos extremamente reveladores: cafés e milk tea shops se multiplicando, night markets revitalizados, EVs acessíveis se tornando o “segundo carro da família”, eletrodomésticos gigantes entrando nos lares como símbolo de status e conforto.
Curiosidade: nas cidades emergentes, o índice de casamentos e a receita disponível crescem mais rápido e a aquisição de imóveis é mais viável. Esses fatos levam a um maior investimento em conforto nas cidades emergentes de Tier 3 e abaixo, com um consumo mais vibrante de eletrodomésticos e EVs.
Essa vitalidade cotidiana, marcada por escolhas de consumo, novos hábitos e novos espaços urbanos, é o verdadeiro rosto da China emergente.
E o Brasil com tudo isso?
À medida que observamos essa transformação silenciosa das cidades chinesas, surge uma pergunta: por que o Brasil não pensa o desenvolvimento de suas cidades de forma mais estratégica? Convidamos uma estudiosa das cidades brasileiras, Debora Emm, a colaborar com essa reflexão. Ela tem estudado o potencial das cidades médias brasileiras e como esse tema tem têm tido pouca visibilidade nas últimas décadas.
“Pela falta de um modelo de pensamento sobre o território nacional, o país é refém de São Paulo e Rio de Janeiro. O fluxo de investimentos, o olhar para a cultura, o interesse do mercado é extremamente concentrado nestes pólos, o que cria um desafio gigante para as outras cidades do país para serem vistas e reconhecidas como dignas de investimentos e interesse. E nessa toada de concentração, estes centros vão se tornando cada vez mais insuportáveis para a vida mas também mais caros e desafiadores para que negócios aconteçam.
Na realidade prática, existem polos de diferentes características no país, assim como na China, mas a decodificação desse mapa ainda é pouco pensada e conhecida. Tanto para o campo das políticas públicas, como para as ações da iniciativa privada. E o segredo para repensarmos é olhar para as cidades para além da lógica de tamanho, mas pela combinação de elementos que as tornam estratégicas dentro de nosso mapa.”
Se a China que molda o futuro não está somente nas megacidades, mas nas cidades que quase ninguém vê, o que isso diz sobre a forma como costumamos interpretar o mundo? Quantas “Hefeis”, “Wuxis” e “Jinhuas” brasileiras e espalhadas pelo mundo existem à espera de reconhecimento, investimento e visão estratégica?
E, sobretudo: será que estamos olhando para os lugares certos quando tentamos entender o que define o futuro de um país?
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[como uma ilha marcada por ocupações e espiritualidade se transformou em uma potência global no universo dos chips]
out 27, 2025
Com uma viagem de trabalho planejada para Tóquio, olhamos para o mapa e começamos a pensar: como aproveitar os três rápidos dias de “miniférias” para explorar algum lugar na Ásia? Teríamos a chance de nos encontrar pessoalmente (afinal moramos em lados opostos do mundo - Carla em São Paulo e Patricia em Xangai). Contra todas as vozes que diziam “conheça outras cidades no Japão”, nossa vontade mais forte era visitar Taiwan. E assim foi.
Taiwan tinha uma aura de mistério. Sabíamos que o idioma era o mandarim (alvo de nossos estudos), mas e a cultura? E o desenvolvimento? E a comida?
PS: já adiantamos que não vamos entrar em questões geopolíticas envolvendo China, EUA e Taiwan (mas sugerimos a pesquisa!)
Vamos contar coisas que aprendemos e vivenciamos nessa terra tão comentada quanto desconhecida.
Vale dizer que não havia um dia em que não falávamos sobre o quão pouco se aprende sobre a história da Ásia nas escolas do Brasil.
Origem indígena e uma história complexa de ocupações
Desde que os primeiros navegadores portugueses exclamaram “Ilha Formosa” ao avistarem a bela ilha em 1542, seus habitantes viveram sob diferentes domínios, o que torna a trama de Taiwan profundamente complexa.
A ilha foi ocupada pelos holandeses, espanhóis, pelas forças han-chinesas lideradas por Koxinga (Zheng Chenggong) durante o período Ming, pela dinastia manchu Qing (China), pelos japoneses e, após 1945, passou à administração do governo nacionalista chinês, refugiado em Taiwan ao fim da guerra civil chinesa.
A “japonização”de Taiwan
Taiwan foi modernizada e profundamente marcada pelas políticas econômicas e pela cultura nipônica. Em 1895, depois da guerra entre a China e o Japão, a corte da dinastia Qing assinou o tratado de Shimonoseki e cedeu Taiwan ao Japão, que passou a ser uma colônia japonesa.
Os 50 anos da história de Taiwan sob o domínio japonês desenharam uma sociedade interessante em sua complexidade.
Mais do que apenas uma ocupação político-econômica, o Japão viu em Taiwan a oportunidade de desenvolver uma “colônia modelo”. Portanto, o projeto envolveu também um projeto de assimilação da cultura japonesa. Os primeiros anos foram de resistência e luta, que representaram uma década de tentativas fracassadas (de um povo que lutava literalmente com facas e enxadas contra um exército armado).
Primeira fase: resistência
Nesse período, o Japão foi impondo contenções ao desenvolvimento de qualquer cultura que não fosse a nipônica. Encontros organizados e jornais taiwaneses, por exemplo, foram proibidos, assim como realizar rituais ligados à antiga dominância Han (grupo étnico oriundo da China). No lugar de escolas confucionistas, entrou a força da educação japonesa, que ensinava também a lealdade total ao Imperador do Japão, assim como a ética japonesa.
Segunda fase: assimilação cultural
Assim que a resistência foi controlada, o Japão passou para a fase de assimilação cultural e linguística. Templos xintoístas foram construídos por toda a ilha. Religiões locais (Taoísmo, Budismo e práticas espirituais indígenas) foram suprimidas. A ideia de que era mais “civilizado” ter um nome japonês ou vestir-se como os japoneses passou a ser disseminada. Junto com a educação, essa foi a forma encontrada pelo Japão para dominar a sua narrativa na então “colônia-modelo”. Isso durou até 1930.
Terceira fase: imposição pelo controle
As autoridades coloniais implementaram políticas para apagar a identidade chinesa e impor a identidade nacional japonesa. Era proibido ter nomes que não fossem japoneses e também falar chinês ou outros dialetos locais em público. A exposição da cultura chinesa em publicações era censurada. O objetivo: transformar Taiwan em uma extensão do império japonês.
Ironicamente, muitos dos avanços que fizeram com que Taiwan se desenvolvesse vieram desse período. Enquanto reprimia as expressões culturais chinesas e taiwanesas, modernizava a ilha, construindo ferrovias, escolas, sistemas de saúde e indústrias.
Foto emblemática que mostra o contraste arquitetônico Taiwan (esquerda) / Japão (direita) - foto de Simon Norton
O legado colonial foi ambíguo: lançou as bases da modernização, mas o fez por meio da assimilação forçada e da perda cultural.
Quando o Japão se rendeu em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, Taiwan era uma sociedade moderna, mas culturalmente fraturada. Muitas pessoas falavam melhor o japonês do que o chinês e carregavam sentimentos ambíguos em relação aos dois países — uma herança que ainda hoje atravessa a identidade taiwanesa.
Como a paciência virou poder tecnológico
Nos anos 1990, as autoridades locais de Taiwan lançaram a política “no haste, be patient”. Uma tradução aproximada dessa ideia seria: “sem pressa, com paciência”. Num momento em que o capital taiwanês ameaçava migrar em massa para o continente, o objetivo era conter esse movimento e criar um sistema de controle sobre investimentos e tecnologias estratégicas. O que parecia, na época, uma escolha excessivamente cautelosa, acabou se mostrando visionária.
Trinta anos depois, o mesmo raciocínio - de não se apressar e não depender demais de qualquer outra região - reaparece no campo tecnológico e geopolítico.
A ilha de Taiwan foi muito atenta aos efeitos positivos gerados por essa política e adotou essa prática para sustentar sua autonomia em relação aos demais países, baseada em uma interdependência cuidadosamente calibrada.
Taiwan se transformou na powerhouse mundial dos chips, produzindo quase toda a base tecnológica que move a inteligência artificial - de smartphones a satélites. A TSMC, gigante fundada em 1987, virou o coração desse sistema. Produz chips para praticamente todas as grandes empresas de tecnologia do mundo (Apple, Nvidia, AMD, entre outras). Concentra cerca de 92 % da produção mundial de chips de processamento avançado, que alimentam a IA e a computação de ponta.
Exporta para todos os lugares do mundo (inclusive para a China continental), mas preserva dentro de casa o conhecimento e a capacidade produtiva crítica. Esse equilíbrio faz de Taiwan uma região indispensável no tabuleiro global da tecnologia. Um pequeno território adquiriu uma força desproporcional ao seu tamanho — ou melhor, um escudo, como chamam os analistas. Taiwan possui um silicon shield, o “escudo de silício”, que protege a ilha não pela força militar, mas pela centralidade econômica que ela conquistou pacientemente.
O documentário A Chip Odyssey, dirigido por Hsiao Chu-chen (2025), conta essa trajetória com uma lente humana: as histórias das pessoas por trás ascensão de Taiwan como essa potência global dos semicondutores.
Se quisermos ler essa história por um viés mais cultural, o “no haste” expressa uma ética profundamente confuciana: agir com medida, não pela inércia, mas pela consciência do tempo certo das coisas.
Ao mesmo tempo, há também uma influência taoista, na ideia de wú wéi (无为)(agir sem forçar, agir em harmonia com o fluxo natural das coisas), que ainda orienta o jeito taiwanês de pensar política, inovação e diplomacia - uma estratégia que aposta mais na resiliência paciente do que na velocidade.
Brazil-Taiwan: uma história de 70 anos
A imigração de taiwaneses para o Brasil começou nos anos 1960, quando famílias agricultoras, sobretudo de Kaohsiung, buscaram novas terras para um novo começo.
O primeiro grupo organizado desembarcou em 1963: seis famílias cristãs que compraram uma fazenda perto de São Paulo e começaram o cultivo de cogumelos, que com o tempo invadiu os restaurantes de São Paulo e do Brasil.
A estimativa é de que hoje vivam no país cerca de 70 mil pessoas de origem taiwanesa, concentradas em São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro.
Curiosidades:
// em São Paulo, cerca de 70% da comunidade “chinesa” tem raízes em Taiwan
// 85% dos cogumelos consumidos aqui são produzidos por descendentes de taiwaneses
Relação político-diplomática Brasil e Taiwan
No Brasil, quando conhecemos alguém que fale “chinês”, existe uma grande chance de estarmos falando de alguém de origem taiwanesa. Aqui, a distinção entre Taiwan e China continental nem sempre é clara ou feita de forma consistente. O governo brasileiro, como muitos outros países, não reconhece oficialmente Taiwan como um Estado soberano independente, tratando-o como uma província da China.
A bela cidade de Taipei
Um pouco sobre nossa viagem. Foram três dias caminhando por Taipei sob o calor úmido de setembro (35 °C). O som das ruas era o chinês… nas vozes, nos letreiros, nas músicas que vinham das lojas. Praticamos nossos conhecimentos da língua enquanto fazíamos uma reflexologia por 500 dinheiros locais (R$ 87,00).
Taipei é uma cidade grande com características de modernidade, mas com charme de quem tem uma história própria para contar.
Andamos por metrôs limpos e organizados, passamos por parques que contornam rios, vimos pessoas correndo, crianças aprendendo a andar de bicicleta. Admiramos o verde exuberante da cidade (que de certa forma, nos lembrou de outros países tropicais do sudeste asiático, assim como do Rio de Janeiro).
Nos surpreendemos com os templos tão integrados ao dia a dia das ruas, sem qualquer grande cerimônia. Vimos e entramos em muitos deles. O que mais nos surpreendeu foi o FaChuKung, de cinco andares, três deles dedicados, cada um, a uma filosofia ou religião diferente: o confucionismo, o taoísmo e o budismo. Um lembrete de como o pensamento taiwanês integra o diverso em vez de separar.
Conhecemos o Taipei Xia Hai City God Temple, o templo Xingtian e o templo de Longshan, onde fomos presenteadas com uma cerimônia matinal, logo antes da nossa partida.
Comemos no restaurante que tornou o xiao long bao famoso em outras terras, o Din Tai Fung.
Conhecemos o Dadaocheng Visitor Center, no distrito de Datong, um dos mais charmosos da cidade.
Nos perdemos entre uma ruazinha e outra, casa de chás, de bubble tea, lojinhas e livrarias. Letreiros (alguns bem antigos) por toda parte. Predinhos baixos, tradicionais, com boutiques modernas no andar de baixo.
E quando chega a noite, vem com ela o vapor das bancas de comida de rua e sua diversidade de iguarias. A noite, saindo das ruelas escuras, caímos na modernidade que toma forma em avenidas iluminadas.
Na memória, levamos os cheiros do incenso, os temperos, as cores dos jardins, a temperatura do chá. Carregamos conosco o barulho dos “jiaobei” 筊杯 jogados nos chãos dos templos e o sorriso de quem ficou feliz por ter conseguido ter uma pequena conversa (em chinês) com uma pessoa local.
E de termos aprendido que o nome da senhora simpática era “meihua de Mei” (梅花), que quer dizer “Mei, de flor da ameixeira”.
CURIOSIDADE CULTURAL
Muito antes de ser “descoberta” pelos europeus, Taiwan era uma terra de povos indígenas austronésios — grandes navegadores, ligados ao mar e à vida comunitária. Eles são parentes linguísticos e culturais dos povos do Pacífico e do Sudeste Asiático (Filipinas, Indonésia, Malásia, até Madagascar e Havaí). Hoje, o governo local de Taiwan reconhece oficialmente 16 grupos indígenas, entre eles Amis, Atayal, Paiwan, Rukai, Bunun, Puyuma, Tsou e Tao (Yami). Atualmente, os povos indígenas representam menos de 3% da população de cerca de 23 milhões de pessoas, mas originalmente havia muitas pequenas comunidades com identidades próprias, espalhadas por toda a ilha.
Fotos de povos indígenas que viviam na ilha antes das ocupações europeias
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